As especificidades que podemos identificar na classe multissérie


Letícia de Oliveira

Uma problemática bastante considerável para as escolas rurais – talvez a mais importante – é o trabalho dos professores com as turmas multisseriadas (essas turmas reúnem alunos de diversas idades). Esse termo é/era desconhecido pela maioria dos educadores que, por sua vez, não conseguem realizar um trabalho que contemple as diversidades existentes nas salas de aula.

As classes multisseriadas apresentam algumas especificidades. Essas especificidades, segundo Rosa (2008, p. 224), “exigem do educador saberes necessários para se trabalhar com a diversidade.” Assim, se faz necessário ao professor, considerar que não existem classes homogêneas e que o planejamento das atividades deve contemplar todos os estudantes independentes de seu nível de conhecimento.

As especificidades identificadas nas classes multisseriadas não trazem apenas dificuldades para o trabalho docente, elas trazem também possibilidades para a formação de grupos na sala de aula. Rosa (2008, p. 228) explica ainda que:

Há diferenças quando se consideram as séries, as idades, o sexo, os sonhos, as expectativas, as condições financeiras, socioculturais etc. As semelhanças ocorrem no desejo dos alunos de ter acesso a um sistema de educação com boa qualidade de ensino; acesso aos meios de comunicação e conhecimentos; pelos direitos e deveres civis; pela certificação de seu curso; e na EJA, especificamente, pela vontade de recuperar o tempo perdido.

Diante dessas considerações tão relevantes para o trabalho docente com as classes multisseriadas, é possível realizar um planejamento capaz de alcançar todos os envolvidos no processo de alfabetização das escolas rurais, certificando-se que, as diversidades contribuem para que haja interação, cooperação e construções mútuas dos saberes escolares.

O planejamento pedagógico é um fator valiosíssimo para identificar os problemas de aprendizagem nas salas multisseriadas. É capaz de criar estratégias para desenvolver o currículo da escola levando em consideração principalmente o trabalho dos alunos em equipe.

A análise do artigo de CINEL (2003), sobre a estrutura frasal propõe ao professor das turmas multisseriadas a realização de tarefas que conduzam os alunos a discernirem sobre os aspectos estruturais da língua portuguesa (morfológicos, sintáticos e semânticos) fazendo a avaliação da qualidade e do tipo de mensagens que cada sujeito transmite quando fala ou escreve.

A proposta deve iniciar suas ações desde a educação infantil utilizando o recurso da contação de histórias, nas perguntas e respostas dos determinados assuntos debatidos, nos relatos de experiências pessoais, etc. À medida que, as crianças vão avançando nas séries, mesmo sendo nas turmas multissérie, o professor realiza a retomada dos conteúdos da língua portuguesa de uma forma mais sistematizada incluindo os conceitos determinados pela gramática (frases – nominais e verbais; o uso da pontuação…).

O professor deverá oportunizar ainda, atividades que haja identificação das ideias principais contidas nos parágrafos com interpretações coletivas dessas ideias. Os alunos ficam organizados em grupos (idades diferentes) com materiais didáticos de apoio como: fichas de cartolina com os sinais de pontuação; fichas com cenas que representam frases nominais e verbais ou fichas com palavras pra que os grupos realizem a formação das frases.

Assim, o professor pede para que os grupos interpretem o que foi disponibilizado e aos poucos formem frases com as palavras, fazendo ainda, a análise das estruturas gramaticais.

A lógica dessa organização é muito interessante pelo fato de haver interação entre os grupos. As crianças que ainda não se apropriaram do conteúdo, por exemplo, serão capazes de discutir as relações que determinam os conceitos e assimilar as formas de construção das frases (nominais e verbais) se for o caso e interpretar ainda, as imagens, a partir do ponto de vista coletivo.

A maior dificuldade apresentada pelo professor das turmas multisseriadas seria: atender a todos os alunos, pois, o marco dessas turmas é a heterogeneidade. É certo que não existem turmas homogenias, no entanto, só o fato de haver alunos de várias idades dificulta ainda mais a prática docente.

Outro ponto em questão é a falta de recursos didáticos, visto que, as escolas rurais estão situadas em lugares distantes e acabam em sua grande maioria esquecidas pelas politicas públicas. O professor, diante disso, precisa criar muitas estratégias para oferecer o mínimo de condição que atenda a todos os alunos.

Apesar de tantas dificuldades, os docentes das turmas multisseriadas poderão articular a sua prática docente com a formação de grupos, para assim, trabalhar o currículo escolar. Tendo em vista que, a heterogeneidade existente nas salas, é capaz de promover a cooperação dos sujeitos a fim de alcançar aprendizagens consideravelmente significativas.

Sugestão (plano de aula para séries multisseriadas)

PLANO DE AULA

1. Dados de Identificação

Nível de Escolarização: turmas multisseriadas (1° e 2° ciclos)

2. Tema:

Meus jogos de língua portuguesa

3. Objetivos:

Geral:

Desenvolver e explorar os recursos da leitura, escrita e produção da Língua Portuguesa através de jogos educativos.

Específicos:

  • Permitir que as crianças/jovens/adultos realizem a interpretação dos jogos que por meio de figuras, palavras ou tabelas estão disponíveis.
  • Identificar as situações-problemas apresentadas nos jogos por meio da inferência permitindo que os participantes estabeleçam as possíveis soluções.
  • Produzir frases/textos considerando a ideia principal das palavras que compõe os jogos.
  • Avaliar o nível de conhecimento dos alunos em relação aos conteúdos abordados.

4. Conteúdos:

Jogos

1. Forca da letra maiúscula.

2. Stop das letras

3. Cena em jogo

4. Dominó dos bichos

5. Procedimentos Metodológicos

Inicialmente o professor dividirá a turma em grupos de 2 a 5 participantes, em seguida disponibilizará o material que será utilizado no devido momento e explicará as regras do(s) jogo(s).

O importante é que os grupos sejam bastante heterogêneos, para que haja interações, auxiliando assim, no desenvolvimento cognitivo dos alunos que demonstram pouco domínio de leitura e escrita.

I. Forca da letra maiúscula.

(letras maiúsculas recortadas e folha avulsa para desenhar a forca e escrever a palavra que será adivinhada)

Número de jogadores: 2 participantes.

Como jogar;

1) colar as letras maiúsculas em cartolina ou papelão. Depois espalhar sobre a mesa.

2) o jogador 1 pensa em uma palavra que tenha pelo menos cinco letras  e não diz nada para o jogador 2 e a escreve num pedaço de papel que só será mostrado no final da etapa.

3) Na folha avulsa, o jogador 1 desenha  a forca:

4) O jogador 2 tem de adivinhar a palavra fazendo perguntas como: “nessa palavra há alguma letra A”.

5) quando um jogador adivinha uma letra, o outro tem de dizer SIM, e apontar a posição correta em que ela está.

6) se o jogador 2 pergunta por uma letra que não existe na palavra, o jogador 1 diz NÂO e desenha a cabeça do enforcado.

7) a cada erro do jogador 2, uma parte do enforcado é desenhada. O enforcado é formado por cabeça, tronco, braços (direito e esquerdo), pernas (direita e esquerda),

II. Stop das letras:

(letras e cartela)

Número de jogadores: 2 a 5 participantes.

Como jogar:

1) Colar as letras maiúsculas e minúsculas em cartolina ou papelão. Depois espalhar sobre a mesa dividindo as categorias das letras (maiúsculas e minúsculas)

2) Cada jogador deverá ter a cartela com as colunas – PESSOA, ANIMAL, etc.)

3) A professora escolhe a letra e diz em voz alta, em seguida ela dá o sinal para formar a palavra com a letra escolhida.

4) Todos os participantes deverão formar as palavras com a letra escolhida pela professora. O importante será o tempo mínimo usado para preencher a tabela com as palavras que tenham a mesma letra inicial.

5) Sempre que um jogador disser stop, todos devem parar de formar as palavras.

6) Os participantes deverão conferir (uns dos outros) as cartelas e verificar se as palavras estão corretas. Cada palavra correta valerá 2  pontos.

7) Depois de conferir o jogo se reinicia.

8) Vencerá a dupla/equipe que formar mais palavras em pouco tempo.

III. Cena em jogo

(Letras recortadas e a gravura)

Número de jogadores: 2 a 3 participantes.

Como jogar:

1) Colar as letras maiúsculas em cartolina ou papelão. Depois espalhar sobre a mesa.

2) A professora mostra a cena para os participantes

3) os jogadores observam a cena e socializam para os demais participantes sobre as suas observações.

4) em seguida a professora esconde a gravura e diz “JÁ”.

5) os jogadores tem de formar os nomes de três figuras que aparecem na imagem.

6) ganha o jogo a equipe que escrever corretamente o maior número de palavras da imagem.

IV. Dominó dos bichos

(pecas do dominó de bichos).

Número de jogadores: 4 participantes.

Como jogar:

1)  Colar as peças do dominó de bichos em cartolina ou papelão.

2) Distribuir as peças do dominó entre os participantes (sete peças para cada participante).

3) O primeiro jogador coloca a peça sobre a mesa.

4) Quem tiver a peça com o nome do bicho segue o jogo.

5) A figura ficará do lado da palavra correspondente e assim sucessivamente. Vencerá o jogador que conseguir encaixar todas as peças do dominó primeiro.

5. Procedimentos Avaliativos

O professor fará a avaliação no desenrolar da atividade observando principalmente os alunos que apresentam maiores dificuldades em concluir as etapas do jogo.

A avaliação conduzirá o professor, (caso seja necessário), a repensar no seu planejamento e buscar condições favoráveis, para que as aprendizagens dos alunos das turmas multisseriadas sejam mais significativas.

6. Recursos de Ensino e Espaço Físico

Os jogos necessitarão dos recursos abaixo e poderão ser realizados na sala de aula.

I. Forca da letra maiúscula.

(letras maiúsculas recortadas e folha avulsa para desenhar a forca e escrever a palavra que será adivinhada)

II. Stop das letras: (letras e cartela)

III. Cena em jogo

(Letras recortadas e a gravura)

IV. Dominó dos bichos

(pecas do dominó de bichos)

REFERÊNCIAS

CINEI, N.C. B. Estrutura Frasal: Atividades para o estudo da frase promovem a qualidade da mensagem. In: Revista do Professor. Porto Alegre, 19 (29-33). Outubro/dezembro de 2003.

GENTILE, Paola.  Retratos do ensino rural brasileiro. In: Revista Nova Escola. Ano II, N° 9, Agosto/Setembro de 2010

NEVES, A. A. A. Letramento e Alfabetização Linguística. 2° ano, 2° edição. São Paulo: Escala Educacional, 2008. Coleção Infância Feliz.

ROSA, A. C. S. Classes multisseriadas: desafios e possibilidades in educação & Linguagem. Ano 11, n° 18, 222-237. Jul.- Dez. 2008

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Leticia de Oliveira, graduanda em Pedagogia pela Universidade Federal de Alagoas, fui monitora da disciplina Avaliação Educacional e Educadora.

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