Crônica – Receita de poesia


Receita de poesia

João Mützenberg*

Lutar com palavras, diria o poeta, é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã. Drummond, que foi ser gauche na vida, personificou o duelo diário do poeta com a palavra através de sua vasta produção poética e nas crônicas e contos publicados em jornais e livros.

Mas quando o talento do candidato a versejador não se revela nem mesmo na luta diária com a palavra, como propõe o bardo mineiro em O Lutador, então, qual poderia ser a solução para o noviço escrevinhador? Haveria algum manual poético que poderia auxiliar esse neogaratujador em suas angústias poéticas?

Pois bem, este mesmo que vos escreve esta singela crônica já pensou, nos seus tempos juvenis, em ser poeta. Vivíamos no auge da ditadura militar e minha ingenuidade política não permitia visualizar um país sem um general no comando. Como muitos brasileiros, cantava de peito aberto “Este é um país que vai pra frente”. Então, como não poderia deixar de ser, meus primeiros versos escritos como estudante do então primeiro grau na Escola Básica Antenor Nascentes estavam repletos de referências à pátria heroica. Afinal, estudávamos, semanalmente, Educação Moral e Cívica e aos sábados tínhamos o momento cívico, quando cantávamos os mais diferentes hinos (Nacional, da Bandeira, da Independência, de Santa Catarina e não sei mais o quê) e declamávamos poesias. Todas, claro, exaltavam a pátria e os feitos valorosos. Olavo Bilac, então… este eu sabia de cor e salteado…
Além da pátria, urgia cantar a vila onde nasci e fui criado, Princesa. Naquela época, Princesa era um pacato distrito de São José do Cedro, encravado entre morros de Santa Catarina, na fronteira com a Argentina. Hoje Princesa continua pacata, mas já foi elevado a município, e apresenta algumas marcas do progresso, como atendimento médico, agência bancária, ligação asfáltica a todos os municípios do estado e uma área industrial, embora a atividade econômica mais importante continue sendo a pequena agricultura familiar.

Bem, como dizia, também pensei em ser poeta. Mas o acesso aos livros era restrito. Não havia livraria em Princesa. Tínhamos em casa uma pequena biblioteca, mas grande apoio ao estudo. Meu pai assinava o jornal Correio do Povo, e dele eu devorava o suplemento literário. Ainda não tinha grande compreensão, mas já ia tomando contato com alguma (e boa) literatura. Na escola onde estudávamos, eu meus irmãos, havia uma pequena biblioteca. Fui frequentador da biblioteca escolar, onde conheci a escritora norte-americana Laura Ingals Wilder. Foi a primeira autora da qual eu ‘devorava’ os livros. Hoje ainda é possível acompanhar o seriado Os Pioneiros no canal TCM, uma adaptação livre da saga da família Ingals Wilder. Aliado à minha inexperiência e meninice, minhas primeiras leituras e referências culturais, embora tivessem importância significativa na minha formação como leitor, não permitiam grandes saltos intelectuais e proezas poéticas.

Mas isso seria resolvido, intuí, quando vi o anúncio de um livro, para comprar por reembolso postal, intitulado Aprenda a Fazer Versos. Pronto, pensei, basta seguir o manual e a poesia irá fluir naturalmente. O livro trazia um pequeno tratado poético, ‘receita de poesia’ e um pequeno dicionário de rimas. Daí a rimar Brasil com anil, queijo com beijo, e a minha vila Princesa com fortaleza, sutileza e outras ‘ezas’ mais foi um pulo. Entretanto, embora as rimas saíssem, com a ajuda do devido dicionário, o conteúdo, ah!, esse conteúdo, insistia em não se deixar domar e saía torto, fugidio, famélico, raquítico.

Cresci, virei estudante secundarista e em boa hora abandonei o tal manual. E já abandonava a ideia de versejar quando conheci, então, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire, Fagundes Varela, os chamados poetas do ‘mal do século’, e Castro Alves. Como todo, ou quase todo, adolescente, mergulhei na leitura desses poetas e, mais que lê-los, imitá-los era o que eu queria. Meu Deus, eu era um jovem que esbanjava saúde por todos os poros, mas meus versos saíam tísicos! Tortos, fugidios, famélicos, raquíticos e, agora, tísicos! Sem forma, sem conteúdo.

Do suplemento literário do Correio do Povo tinha contato com o Caderno H, de Mário Quintana. E já vislumbrava poesia em nuvens, objetos, pessoas, lugares, ventos. Mas, quando, não lembro agora em qual momento, se foi no suplemento literário ou numa aula de literatura, tomei contato com a poesia de dois Carlos – o Nejar e o Drummond – a perspectiva de poesia tomou novos rumos. E mais poetas fui acrescentando, Bandeira, João Cabral, Vinicius, Cecília. E mais outros foram vindos.
Conto isso, por que, pergunto-me, tiveram eles seus manuais? A se considerar a boa literatura que produziram, provavelmente mantiveram distâncias de manuais… Manuais de poesia são se restringem ao Aprenda a Fazer Versos. Entre os nossos poetas consagrados, Olavo Bilac iria contribuir com o seu Tratado de Versificação, que tinha mais um valor didático. Mas manuais, ainda há quem os lê para escrever poemas, como quem escreve um ofício?

Creio que não. Não sei se o talento seja algo inato à pessoa, mas, se for, passa por uma série suada de esforços. Drummond, no já referido poema O Lutador, utiliza-se de palavras como ‘combate’, ‘duelo’, ‘peleja’. E João Cabral, em seu O Ferrageiro de Carmona, na alegoria entre o ferrageiro e o poeta, utiliza-se de expressões como ‘forjar’, ‘domar’, ‘dobrar’, ‘corpo a corpo’ para referir-se ao fazer poético. Voltando um pouco mais no tempo, Olavo Bilac também já se referia a verbos que indicavam dominação sobre a palavra, sobre a versificação, como ‘torcer’, ‘engastar’, ‘dobrar’ para a ourivesaria poética. Percebe-se, então, que o fazer poético infere em esforço, em peleja corpo a corpo para dobrar a palavra…

E muito antes de Bilac, Cabral ou Drummond, Platão e Aristóteles já teciam reflexões acerca da poesia na Grécia Antiga. Claro, precipitado leitor, não confundamos as reflexões helenistas, que seriam fundamento para toda teoria literária posterior, ou reflexões cabralinas ou drummondianas com manuais poéticos ou textos didáticos sobre artes poéticas. São patamares diferentes que inferem em distintos significados.

Além desse trabalho de oficina, há, claro, todo um referencial cultural que é determinante no fazer poético. Manuais poéticos podem, no máximo, fornecer informações técnicas acerca da arte poética, como informar o que é um decassílabo, ou uma rima, ou então uma redondilha menor ou maior. Mas daí, da simples leitura de um manual sair um poeta… são outras histórias…
Entrevistado, certa feita, por um grupo de estudantes, Mário Quintana deu a receita para quem quer ser poeta: “Ler, ler, ler. Escrever, escrever, escrever.” Em outra entrevista, o mesmo Quintana diria que aprendeu a escrever, lendo, da mesma forma que aprendera falar, ouvindo. Compreende-se que uma sólida formação cultural através da leitura dos mais diferentes autores e uma atividade intensa de escritura e reescritura são processos fundamentais para alguém que queira ser poeta ou escritor.
Escrever, então, e mais do que escrever, tecer textos com qualidade artística, infere em uma luta diária com a palavra na busca da expressão que melhor traduza o sentimento poético, na forma e no conteúdo.

No decorrer da história da literatura, é possível exemplificar como poetas refletiam sobre o fazer poético, implicando em estilos literários diversos, conforme o tempo, conforme o espaço.

Olavo Bilac, o primeiro príncipe dos poetas brasileiros, com sua Profissão de Fé deixaria uma verdadeira receita para a arte parnasiana:

Torce, aprimora, alteia, lima
A frase, e enfim,
No verso de ouro engasta a rima.
Como um rubim.
Quero que a estrofe cristalina,
Dobrada ao jeito
Do ourives, saia da oficina
Sem um defeito.

 

Já o poeta francês Charles Baudelaire com suas Correspondências nos deixa uma “receita poética” em que analogias sensórias e visuais revelam características do Simbolismo

 

A Natureza é um templo vivo em quer os pilares
Deixam filtrar não raro insólitos enredos;
O homem o cruza em meio a um bosque de segredos
Que ali o espreitam com seus olhos familiares.

Como ecos lentos que a distância se matizam
Numa vertiginosa e lúgubre unidade,
Tão vasta quanto a noite e quanto a claridade,
Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam.

 

E nessa mesma linha simbolista, outro francês, Rimbaud, dá cor aos sons vocálicos:

 

A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu.

Entre os nossos simbolistas, Cruz e Souza também deixaria sua receita com seu poema Antífona:

 

Ó formas alvas, brancas, Formas claras
De luares, de neves, de neblinas!…
Ó formas vagas, fluidas, cristalinas…
Incensos dos turíbulos das aras…
[…]
Que o pólen de ouro dos mais finos astros
Fecunde e inflame a rima clara e ardente…
Que brilhe a correção dos alabastros
Sonoramente, luminosamente.
[…]

 

Poetas refletem o seu tempo. E, como não poderia deixar de ser, também expressam um modo do fazer poético. Nas citações acima, é possível identificar movimentos literários, como o Parnasianismo e o Simbolismo.

Para ampliar a discussão aqui proposta, seria possível também citar cartas escritas por autores consagrados a jovens escritores, como Rilke, Mário de Andrade e outros. Sem esquecer o livro bastante recente de Mario Vargas Llosa, Cartas a um jovem escritor (que dá um alento a quem está começando a escrevinhar: “Todos os romancistas grandes, os admiráveis, foram, no começo, escritores aprendizes”), ou ainda a Carpintaria de Autran Dourado na construção de romances. Mas isso é assunto para outra crônica.

Drummond, além do já citado O Lutador, deixaria diversos outros poemas metalinguísticos, que discutem o fazer poético. Em Procura da poesia o poeta mineiro dá uma verdadeira receita sobre como fazer, ou o que não fazer, para a escritura de um poema:

[…]
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu pode de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Também João Cabral de Melo Neto fez referência à arte poética com alguns poemas. Um deles, o já citado O Ferrageiro de Carmona, do qual cito as duas últimas estrofes:

[…]
Dou-lhe aqui humilde receita,
ao senhor que dizem ser poeta:
o ferro não deve fundir-se
nem deve a voz ter diarreia.

Forjar: domar o ferro à força,
não até uma flor já sabida,
mas ao que pode até ser flor
se flor parece a quem o diga.

 

Já no livro A Educação pela Pedra, João Cabral traz o poema Catar Feijão, que virou referência para as aulas de produção de texto:

 

Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo;
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
[…]

 

Então, a poesia, que fala de flor, de vento e de outras mais abstrações ou insignificâncias, para citar o mato-grossense Manoel de Barros, exige um trabalho árduo de carpinteiro, de ourives, em uma peleja corpo a corpo com a palavra. Acrescente-se a esse esforço, a necessidade de uma formação poética adquirida através da leitura (e muita leitura, segundo Quintana) de poesia.

Entretanto, para alguém se fazer poeta, mais do que uma formação sólida e uma peleia com a palavra, há que se ter o espanto poético. Cabrera Infante, em seu livro Três Tristes Tigres, traz uma fala que pode ser acrescentada à discussão que se desenvolveu nesta crônica: “Do assombro nasce a poesia”.

Manuais poéticos, então, podem ficar na estante, dividindo espaço com poeira e traças, enquanto o jovem poeta se afunda em leituras e forjas, e, ao olhar para o mundo, traduz em versos seu espanto e seu assombro diante das maravilhas e misérias humanas.

João Mützenberg, mestre em Estudos Literários e Culturais, é professor da rede pública de ensino.

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