Há 11 anos, Cooperifa leva poesia à periferia de São Paulo


Daniel Mello/Agência Brasil

São Paulo – A insistência, sustenta o poeta Sérgio Vaz, é a principal razão do sucesso da Cooperifa, movimento cultural que há 11 anos difunde poesia, literatura, música e cinema na periferia paulistana. “O sarau é feito toda quarta-feira, há 11 anos, ininterruptamente”, conta Vaz, que idealizou o projeto.

“Hoje vai chover, mas, qualquer pessoa, de qualquer lugar, sabe que vai ter o sarau da Cooperifa”, garante, poucos minutos antes do início do evento no Bar do Zé Batidão. O estabelecimento no Jardim Guarujá, zona sul da capital paulista, abriga o sarau em que poetas locais e convidados se revezam ao microfone.

Crianças, adolescentes e adultos de todas as idades recitam versos próprios, de poetas conhecidos ou cantores famosos. Cada com seu estilo. Alguns interpretam, outros fazem graça. Vários passam pela estética do rap, que tradicionalmente denuncia as condições da população negra e pobre. “Esse novo artista da periferia é um artista cidadão. Ele não faz a arte só pela arte, ele representa as pessoas que não têm voz, não têm teatro, não têm cinema. É um movimento político apartidário”, explica Vaz.

Com a criação de outros saraus no mesmo modelo por toda a cidade de São Paulo, ele acredita que há na periferia uma efervescência semelhante à experimentada pela classe média nas décadas de 1960 e 1970. “Talvez com menos dinheiro, menos condições, menos espaço. Mas, ainda assim, é uma efervescência cultural. As pessoas se apropriaram dos bares, tem cinema na laje, botecos, becos e vielas”, acrescenta.

A partir dessas iniciativas foi criada a Mostra Cultural da Cooperifa. O evento está na quinta edição e trará, a partir de amanhã (3), diversas manifestações artísticas para escolas e outros espaços da região. A programação inclui atrações musicais, saraus de poesia, espetáculos de teatro e dança, exposições e a exibição de filmes.

O crescimento do trabalho se reflete no reconhecimento de personalidades como o escritor moçambicano Mia Couto, que participará do próximo sarau no Zé Batidão e é um dos destaques da mostra deste ano. Para Vaz, o escritor  deverá se identificar com a realidade da periferia. “Porque só ele para entender o que a gente passa aqui. Porque ele fala de uma terra devastada, de um povo que sofre também”, diz sobre o escritor que tratou, no romance Terra Sonâmbula, da guerra civil em Moçambique pelo olhar das tradições africanas.

A presença do autor, reconhecido mundialmente, também ajuda, na avaliação de Vaz, a afastar preconceitos sobre a cultura que está sendo construída na periferia. “Aqui no Brasil você convida vários caras conhecidos e eles não vêm porque têm medo”, reclama. Para o poeta, os bairros mais pobres ainda são vistos de forma estereotipada, principalmente nos meios de comunicação. “Parece que eles querem ver a gente sempre algemado, com a cabeça baixa e alguém sempre esculachando, como se a periferia fosse aquilo o tempo inteiro”, critica ao falar sobre a imagem passada pelos programas de jornalismo policial.

“A gente não vive só de dor. A gente é o espinho que vigia a flor. A gente também gosta de flores. A gente só não tem muitas”, filosofa sobre a importância de trazer artistas renomados como Mia Couto e obras famosas para essas áreas da cidade, região que tem demanda crescente por cultura. “As pessoas se apropriaram da literatura”, diz Vaz ao abordar a formação de público, o que considera grande ganho da Cooperifa. “O que a gente conseguiu foi produzir e consumir a arte que a gente faz, porque o maior ganho da Cooperifa não é criar novos escritores, é criar novos leitores”, completa.

Nessa linha, a mostra deste ano terá atenção especial às crianças. O espetáculo infantil O Boneco do Marcinho, que será apresentado em duas escolas, abordará a infância na periferia. O ator Emerson Alcalde, responsável pela peça, explica que existem diferenças culturais e sociais marcantes para quem cresce em um bairro pobre de uma grande cidade. “Os brinquedos que elas ganham são muitas vezes do crime”, exemplifica ao lembrar a própria infância e de parentes próximos.

A ideia de apresentar a peça infantil surgiu, segundo Alcalde, da percepção do grande interesse das crianças pelo teatro que o ator leva às ruas da cidade. “Eu faço teatro na rua e só criança para para ver. O adulto, o adolescente não liga”, conta. Por isso, Alcalde resolveu fazer um espetáculo que privilegiasse esse público que costuma ficar de fora dos saraus tradicionais da Cooperifa. “A gente vai chegar onde o sarau não chega. Pessoas que moram aqui na rua, mas não vêm por causa do horário e por não poder frequentar um bar.”

Em troca, o ator espera ajudar a formar adultos mais sensíveis à arte. “Espero que sejam adultos mais sensíveis, que dali possam despertar para ir ao teatro, depois a uma exposição e a outras atividades culturais, não ser tão fechado às artes.”

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